Descrição
Na rica e vibrante tradição dos quadrinhos políticos latino-americanos, que conta com nomes consagrados como o argentino Quino e sua inesquecível Mafalda, a obra de Juan Sasturain e Carlos Sampayo — materializada na figura enigmática de Perramus — ocupa um lugar absolutamente singular. Diferentemente das tiras de crítica social cotidiana, Perramus se impõe como uma narrativa longa, uma saga serializada que respira e se estende por múltiplos álbuns, construindo um universo coeso e complexo. Sua potência reside na coragem de abordar feridas abertas da história recente, como a brutal ditadura militar argentina dos anos 1970, mas fazendo-o não através do realismo cru, e sim por meio de uma lente alegórica e surrealista que transforma a opressão em mito e a resistência em lenda.
Contudo, limitar Perramus a um mero relato político seria reduzir sua grandiosidade. A série é, acima de tudo, uma celebração apaixonada da cultura das Américas, um vasto caldeirão onde o imaginário do western norte-americano se encontra com os labirintos metafísicos de Jorge Luis Borges, onde o folclore portenho dialoga com a literatura universal. É nesse caldeirão que nasce Dente por dente (176 pp., tradução Michele Strzoda e André de Oliveira Lima), o quarto livro protagonizado pelo personagem “sem nome” — Perramus é, na verdade, a marca de sua capa de chuva, um detalhe que revela a identidade fluida e quase fantasmagórica do herói.
Classificado pelos próprios autores como o álbum mais “aventuresco” da série, Dente por dente é uma narrativa de tirar o fôlego que se inicia com uma profanação tipicamente argentina: o roubo de um dente do túmulo do lendário Carlos Gardel, o ídolo máximo do tango. O que se segue é uma frenética e absurda corrida internacional para recuperar a relíquia, uma odisseia que transforma cada página em um quadro de pura inventividade gráfica. E como se não bastasse a homenagem a Gardel, a trama presenteia o leitor com a aparição do próprio Borges, magistralmente retratado, transformando a busca por um simples dente em uma jornada filosófica e cultural que questiona a própria natureza da identidade, da memória e da arte. É uma obra que prova que o quadrinho político pode ser, ao mesmo tempo, uma aventura eletrizante e um profundo tratado sobre a alma latino-americana.






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